Do outro lado – I

Lisboa, do outro lado

Hoje, como todas as quartas-feiras (dia em que tenho aulas de manhã à noite, literalmente), foi um dia particularmente cansativo. No entanto, tenho de confessar que foi a primeira vez que senti um cansaço agradável e reconfortante depois de um dia destes.

Entrei na última aula do dia (a que custa mais) à espera do habitual rol de teoremas e demonstrações que eu nunca consigo acompanhar a 100%. Sentei-me, abri o dossier, comecei a ouvir a voz do professor e reparei que, hoje, fazia um aviso categórico: esta seria a aula mais difícil de todo o semestre, aquela que nenhum de nós iria acompanhar, que teríamos muito que ler (e várias vezes) até o conseguir. “Não ambicionem perceber o que vos vou dizer hoje” avisava ele, num sorriso disfarçado de quem um dia já esteve no nosso lugar. A minha reacção foi imediata: as “antenas” despertaram, o cérebro acordou e a mão direita escreveu com outro vigor. Desfrutei desta aula como de nenhuma outra desta cadeira até então, e saí com a sensação de que percebi muito mais do que esperava.

À vinda para casa, no comboio (ferrocarril), vim a pensar neste efeito mágico que um olhar diferente pode ter em nós. A mesma experiência, rotina, momento, vivido vezes sem conta, pode tomar um sentido renovado e refrescado, com mais sentido até. Um olhar diferente, motivado por algo exterior ou por uma vontade nossa, derrama um banho de espuma que lava e dá brilho ao que dantes não se via com clareza. E às vezes é tão fácil, tão alcançável!

Gostava de saber experimentar mais vezes esta renovação simples de atravessar o rio e ver do outro lado da margem. Atravessar o rio, e ver o essencial.

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traços e tintas

Hoje ficou no meu pensamento a cinza do dia de ontem.

Segunda-feira, 12h: Inauguração do ano académico do programa de Doutoramento em Economia da Universitat Autònoma de Barcelona (IDEA -UAB). Sala cheia, púlpito com microfone, cadeiras da frente reservadas – por meio de um papel A4 impresso 5 minutos antes da sessão – para nomes sonantes (para quem é versado, o que ainda não é o meu caso).

Depois de introduções e apresentações, algum palavreado formal e referências a pessoas que não conheço, entregou-se o palco à presença dos oradores, economistas de formação e profissão. O segundo professor, israelita, chamou-me à atenção desde logo pela sua aparência física, visivelmente diferente e humildemente seguro à sua maneira. Uma vez agarrada, a minha mente absorveu mais facilmente todo o discurso cativante e descomplicado deste senhor com quase 25 anos de carreira. Explicava como romper com axiomas teóricos de forma a construir uma investigação mais realista, como integrar o conhecimento do passado com as necessidades do presente e antecipação do futuro. Tornava palpável a realidade com que sonham muitos investigadores: trazer de facto algo de novo, porque se reinventa e adapta o antigo. Todo o discurso envolvido numa postura suave e humilde mas convicta do seu trabalho.

Deu-me a imagem viva da diferença entre experiência e sabedoria, entre sabedoria e criação, entre criação e abertura.

Acendeu-se assim uma fogueira no espaço ainda muito por preencher do meu intelecto. Gosto desta maneira de estar e de se revelar. Gosto de olhar para o trabalho como uma pintura que alguém vai ver um dia. Ainda que demore muito tempo a preparar as tintas, a escolhê-las, a aprender os diferentes tons e a saber jogar com eles, a pintura pode mudar a estética de uma era.

Vai uma matinée?

E agora um pouco de leveza:

"Provavelmente, a melhor equação do ano"

Hoje, devido à entrega que temos para amanhã, o grupo em peso ficou numa sala comunitária a tentar resolver individual/colectivamente os problemas. Foi a nossa primeira tarde de trabalho conjunto.

O “Problem Set Number 1” é composto por 10 exercícios (com alíneas) de Matemática altamente abstracta, demostrações, desigualdades, desdobramentos de casos e provas quase ao nível do 1 + 1 = 2 (querem provar isto axiomaticamente? Vá lá, é giro!)

Não me envolvi imediatamente na discussão. Quis primeiro ler e ver o que (não) percebia – até porque era das únicas que ainda não tinha sequer olhado para o enunciado (shame on me). Fui fazendo os exercícios ao meu passo, fui falando e partilhando formas de resolver, fui recebendo ajuda. Durante toda esta actividade, fiquei a pensar que aquela tarde poderia dar um filme condensado, prensado em tempo e local e até personagens. Tínhamos de tudo:

1) O herói: aquele que resolve todos os problemas com mais uma demonstração, aquele que sabe mesmo da poda e vem para ajudar;

2) O guru: aquele sem quem ninguém avança, que não só nos dá o empurrão como também estabelece uma linha filosófica entre a escrita Matemática e a realidade;

3) O Merlin: absolutamente essencial. Merlin sabe precisamente o que o Professor quer dizer com o enunciado, o que ele deve estar a pensar e até adivinha as datas dos próximos “Problem Sets” com base numa intuição bastante apurada e um algoritmo sofisticado que brinca com o calendário;

4) O “traz-coisas”: primeiro o livro, depois outro, depois os slides. Mais tarde bebidas, e ainda café, há alguém que pensa em todos nós.

5) O vilão: o melhor para o fim. Aquele que quer introduzir tópicos de conversa como “Vamos à praia este fim-de-semana?” ou “Quem quer ir lanchar?”. Persuasivo e subtil, desvia para paisagens mais interessantes.

Passei o filme na minha cabeça à vinda para casa. Revi as personagens e, generalizações à parte, senti que hoje conheci melhor cada um de nós e o nosso grupo enquanto tal. E essa foi a parte que melhor se instalou em mim.

Gostei muito desta tarde de trabalho e agradeço a todos os que aprendi com eles, de matéria e mais. Foi uma grande ignição e acelerador para o meu estudo!

Noves fora

Torre de Babel, representação Bíblica

Que a matemática é uma linguagem universal, já nos foi dito muitas vezes. Na realidade, se pensarmos no conceito “universal” como algo que está ao alcance de tudo e todos, a matemática é uma disciplina que dispensa contextos próprios de uma só cultura, não necessita de tradução e é potencialmente entendida nos quatro cantos do mundo. Por outro lado, ser uma linguagem implica, a meu ver, uma forma de expressão e de comunicação. Até podemos pensar que, traduzindo uma lógica de raciocínio, a matemática pode bem servir (e muitas vezes com mais eficácia) de idioma.

No entanto, foi no fim do trapézio que percorria este pensamento que hoje, por volta das 10h da manhã (1 hora depois de começar o débito de matéria sobre espaços vectoriais e distâncias euclidianas) que me ocorreu a seguinte, súbita e sofisticada ideia: porque é que não estou a pescar nada desta aula? Senti-me qual formiga tímida trepando pela Torre de Babel – sim, eu nem sequer era uma das pessoas que tentava comunicar. Era, simplesmente, alguém que observava o intenso jogo de ténis entre tentativas arbitrárias de provar teoremas.

Para ser linguagem também minha (que já foi mais), eu tenho de em primeiro lugar querer transmitir algo e descodificar o que isso é. E assim se passa com o resto da minha vida: há uma linguagem simples e subliminar entranhada em tudo o que sou e que faço. Noves fora, sobra-me tempo para a descobrir e reaprender a falar assim.

Foi então que percebi, no meio de todas estas emoções, que estive a “matematizar” aquilo que sentia. Agradou-me a lógica que isso faz… como se saltasse do trapézio e me apercebesse que caí em rede segura!

O novo mundo

Pocahontas, Walt Disney

Hoje foi o primeiro dia de aulas. A estreia do que um dia virá a ser a minha rotina!

Gosto muito da rotina no que ela tem de liberdade e inovação. É engraçado, mas por enquanto ainda me sinto de férias. Tem sido muito bom: tudo é novo, tudo me invade o olhar; todos os pormenores, talvez despercebidos se a terra fosse minha, tornam-se aqui chuvadas de informação para processar. Estou a aprender cadeiras de Matemática e Economia, mas também uma nova cidade, uma semi-nova língua, novos amigos e novos hábitos. No entanto, não deixo de sentir imensa vontade de percorrer os dias que faltam (quantos? não sei) até que viva aprendendo mais do que aprenda a viver.

Olhando avidamente à minha volta na sala de aula, como uma criança (ou mesmo eu) num parque de diversões da Disney, pensei: estas serão as pessoas dos meus dias. Tinha ao meu lado, atrás e à frente, caras novas, e cada uma traz um mundo inteiro de vida à minha. Rodeiam-me, silenciosamente, hábitos húngaros, língua polaca, história turca, cultura latino-americana. Tanto para absorver e a calma que me dá ter tempo para o fazer. Senti que todos os que ali ouvíamos falar do PIB e dos espaços métricos formamos, de uma maneira despercebida, um grupo de exploradores em território desconhecido, simplesmente à descoberta. Não nos apercebemos ainda dos lugares por onde andar nem dos pés daqueles com quem o fazemos, mas o tempo abraçará estas vidas que hoje se juntam. Lembrei-me então do “novo mundo” que o Capitão John Smith tanto ambicionava ao partir para terras americanas, no filme Pocahontas. Cantava ele assim:

All of my life, I have searched for a land
Like this one
A wilder, more challenging country
I couldn’t desing
Hundreds of dangers await
And I don’t plan to miss one
In a land I can claim
A land I can tame
The greatest adventure is mine!

O território é imenso… e estou só a começar!