Baile de Máscaras

Porta Aberta
Porta Aberta

Tudo em nós depende daquilo que somos.

É engraçado como a pessoa que somos não sai da nossa aura. Como uma sombra discreta, acompanha-nos a cada momento, e só a vemos quando há sol – isto é, quando há luz. Quando temos claridade suficiente para olhar de frente para o nosso interior, as nossas fragilidades, nossa garra, os nossos medos, motivações, segredos e contradições.

A verdade é que esconder, a longo prazo, troca-nos as voltas. Porque fingimos ser alguém que não somos, e mais cedo ou mais tarde (às vezes tão tarde que a queda é desamparada) a vida vai pedir-nos contas daquilo que pusemos em cena.

A única coisa que nos liberta de nós, de preconceitos, de perguntas inconvenientes, de momentos que nos desmascaram… porque já tirámos a máscara voluntariamente.

PS: Isto não é fácil.

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Livro dos dias XXIII

malmequer-dos-brejos, uma das primeiras flores da Primavera

Hoje deixei a tarde, o possível (e previsível) trabalho, o livro que acompanha os dias e a lista de recados, e fui a um museu.

Descompus a tarde planeada e voei de autocarro até Pedralbes (zona até agora desconhecida). Cheguei ao Palau Reial (Palácio Real), deslumbrada pelos amplos espaços e distâncias incomparáveis nesta parte da cidade. Era o início da zona universitária, que me mostrou ao longe a Faculdade de Direito, de Ciência, de Economia e Empresa.

Entrei no recinto pela porta principal, seduzida pelo verde infinito e o suave mergulho da água nas fontes.

Mergulhei também eu nos museus que este Palácio oferece: Cerâmica, Têxtil e Indumentária, e Artes Decorativas. Todos nos dão uma perspectiva sobre cada forma de arte ao longo dos séculos. Conduzem-nos, em marcha-a-trás, por uma estrada já percorrida e da qual somos “apenas” espectadores póstumos, nascidos depois da morte dos nossos antecessores.

Esta tarde deixou um impacto forte em mim; não apenas pela beleza das exposições que alberga, mas porque me fez sair com uma ideia a ecoar o espírito: o ser humano, em tudo o que faz, busca a sua identidade e expressão. Por entre as várias transformações da cerâmica espanhola, distinguem-se as influências da época, dos regimes e seus governantes. Dentro do espartilho ou debaixo das saias tipo “avestruz”, há a procura da forma mais generosa de apresentar o corpo humano que existe. Nas pinturas complicadas de uma mesa barroca, ressalta a vontade de demonstrar riqueza e luxo, a unicidade do sucesso.

Não pude deixar de pensar que, na minha própria vida, faço este tipo de rascunhos, de tentativas, de abordagens a mim própria no mundo. Senti, por um momento largo, que todo o tempo antes de mim, aqui e agora, é um grande rascunho.

Qual a curiosidade deste sentimento?

É que o rascunho também é vida. Aliás, atrevo-me a dizer que o rascunho é muito mais vida que a obra que idealizamos. Porque é o entretanto, é o que nos move e nos leva até à meta, é onde nos escondemos.

É a simplicidade que nos está guardada!

Encontros

Há poucos dias, depois de demasiada Teoria dos Jogos e Econometria, decidi aventurar-me pela Biologia e afins (algo de percebo pouco ou nada). Folheando o grande livro da internet, os meus olhos pararam (e não me deixaram teclar mais) sobre um artigo que falava da geometria da natureza.

Desde tempos antigos, muitas horas e inteligência humana foram dedicados a encontrar a persistente geometria inerente a todas as formas vivas, à natureza e ao planeta como um todo. Chamavam a esta ciência a “Geometria Sagrada”, e nela projectavam o ponto de partida e de chegada do entendimento do mundo.

Deu-me que pensar… Nós, como parte da natureza, também obedecemos a uma geometria. As vidas cruzam-se, renovam-se e desenrolam-se em páginas de desenho. Povoamos os nossos dias de caos, apenas para nos apercebermos, com o passar do tempo, das trajectórias geométricas e com pontos de viragem, de continuidade, de começo e recomeço tão definidos como os vértices de uma figura.

Tenho vivido, especialmente nas últimas semanas, uma série de encontros exteriores e interiores que sinto como o fim do desenho de figuras , para recomeçar outros traços, outros polígonos desenhados a carvão e cravados de alma às cores.

Desta geometria nasce o encontro connosco e com o mundo, e deste encontro voltamos à geometria angular e sempre criativa da vida que há em nós.

Heróis com tamanho real

Para ir e vir do lugar onde passo grande parte do meu dia, a faculdade (Universitat Autònoma de Barcelona), confio unicamente no ferrocarril. O ferrocarril é algo a que nós chamaríamos comboio, que mistura as características de um metro urbano e um comboio suburbano. Leva os seus passageiros desde o centro da cidade.

Pelos diversos locais por onde passo diariamente, há muito a acontecer, muito para ver. Uma paisagem de pré-montanha acompanha e aconchega o olhar, e nos dias de sol e boa visibilidade acordam os meus sentidos com uma beleza invulgar. Cada paragem tem a sua história. A pouco e pouco, vou conhecendo o que se passa, vou-me apercebendo dos diferentes mundos dentro deste rota que já é minha, rotineira e singular.

Um dos momentos que mais me encanta é quando o meu regresso a casa coincide com o regresso dos alunos dos vários colégios que moram ao longo da linha que percorro. As meninas entram numa paragem; os rapazes, invariavelmente mais barulhentos e movimentados, entram um pouco depois. Com as suas fardas desfraldadas e cansadas, como eles, do dia cheio de aulas, actividades e dinâmicas “sociais”, as crianças vão desde os 5 aos 15 anos. Apresentam-me, numa viagem de cerca de meia hora, uma curta metragem do que é crescer e todas as suas problemáticas. Senti-me imersa num filme do Harry Potter, em que dou asas à imaginação através de uma realidade tão simples da vida: a infância.

Falam-se de coisas diferentes do que eu falava, sabem-se coisas bem diferentes do que eu conhecia. Os iPods são vulgares, os brinquedos são sofisticados, mas os sentimentos destes pequenos “eus” (pequenos só em tamanho) trespassam toda a humanidade. E, com eles, a simplicidade do olhar, das palavras usadas, dos jogos e concursos improvisados para passar o tempo.

Esta companhia refresca-me a alma e ajuda-me a lembrar que tenho muito a aprender com um coração de criança.

In dreams, we enter a world that’s entirely our own.” J.K. Rowling

Histórias para contar: “A volta ao Mundo”, parte II

Barco de pesca, fiorde no Norte da Noruega

Desde sempre Vincent se habituara a pensar o mundo como um lugar amplo, com espaço para todos. Via a natureza como a grande Rainha, aquela que marca os tempos e os espaços, o sinal mais vivo da presença de Algo maior que a vida terrena. As pessoas, os lugares, mostravam-se a Vincent, no seu mundo branco, como refúgios, pequenos presentes que preenchiam a vida. O tempo, o exacto espaço mediado pelos dias da sua vida, era um aliado solitário que o lembrava dos ritmos . Acima de tudo, porém, aquilo que sempre guiara os passos seguros de Vincent era a certeza de pertencer ao Universo, à natureza em toda a sua grandeza, e de poder chamar-lhe casa.

Um dia, Vincent viria a perceber o quanto a inocência de criança podia estar tão certa e tão errada.

Nada de diferente se passava naquela manhã. A rotina habitual dos dias tão iguais em nada parecia quebrar-se. Acordar, com o nascer do sol: 5 da manhã, porque em Abril o Sol já despertava cedo. Rezar em família e sair para ordenhar a vaca com os irmãos, enquanto a mãe fazia o pão. O pai, Audun, saíra antes, com o cantar astuto e ruidoso do galo (que insistia em assinalar a manhã antes desta chegar), para fazer a primeira ronda de pesca cedo de manhã e assim aumentar as suas probabilidades de uma boa pescaria. Vincent observava de longe toda a preparação envolvida no ritual de seu pai. Fascinavam-lhe os anzóis de cores diferentes, as canas improvisadas e construídas ao longo dos vários anos de experiência. Seu pai era calmo e meticuloso. Compunha o puzzle do material segundo uma ordem natural, preparava o seu traje de “combate” – o qual preferia ver como um jogo de cumplicidade entre si e o Fiorde Ártico – sem nunca esquecer um pormenor.

Enquanto tomava o pequeno-almoço preparado por sua mãe, Emma, que consistia de pão fresco, compota de ruibarbo e leite trazido pelas crianças, a mente de Vincent roubava-lhe imagens daquela mesa onde se sentavam os quatro irmãos e mãe. Na verdade, tinha o secreto e oculto desejo, como uma onda que roça a areia sem nunca rebentar, de um dia sair com o pai e os dois trazerem o maior peixe que jamais entrara em sua casa. Uma truta, um salmão, ou talvez um grande bacalhau. Sim, Vincent nascera para viver aquela vida simples, para deixar que a natureza sempre acolhedora o moldasse, o deixasse crescer em força e coragem, armasse um abrigo seguro para que se pudesse dar à vida.

Três pancadas fortes na porta da pequena casa onde vivia. Vincent caiu das nuvens em que se deixara voar por momentos (quantos?) com um forte trambolhão, que jurava todos terem assinalado. É que, na sua aldeia, entrava-se em casa dos vizinhos como se fosse sua. Assomava-se à janela para desejar bom dia e sentir o perfume do pão matinal. Emma levantou-se subitamente, deixando os filhos gelados e em olhar cúmplice, sem saber o que pensar daquela “violência”.

Anos mais tarde, quando recordava os tempos de infância, Vincent teria a nítida noção da impressão para sempre gravada na sua mente. Daquela cara desconhecida, que entrava por sua casa e que iria, irremediavelmente, mudar o rumo da sua vida.

(continua)