Livro dos dias XVI

Monserrat, visto do cimo da montanha, hoje

Hoje fui visitar o Santuário de Monserrat, a cerca de uma hora de Barcelona.

Armados de livros para turista, folhetos de informações e máquina fotográfica, o nosso (já) escasso grupo de doutoramento decidiu gastar os últimos pontos antes de imergir num novo e trabalhoso semestre. Eram 10h36 quando partiu o comboio que nos levou até ao funicular de Monserrat, e à nossa primeira subida íngreme do dia.

Monserrat tem um história milenar. Foi sendo, com o passar dos anos, convertido na identidade de hoje. Desde palco das aparições da Virgem de Monserrat, ermida, abadia, mosteiro e Basílica, o Santuário reflecte a construção humana e natural numa poesia que se respira, tão limpa como o ar frio da montanha. Subimos, a pé, até mais de 1000 metros de altitude, onde a vista é, mais que deslumbrante, avassaladora.

Deu-me que pensar. Também nós, homens e mulheres, somos uma escultura natural com diversas camadas, tantas mais quanto mais longa a estrada dos anos já percorrida. Como a história de crianças sobre a princesa e a ervilha, há uma essência que somos nós, que resume o mais importante, coberta de inúmeras mantas, colchões e lençóis de tudo o que nos vai construindo com o correr da história. Não que estas capas nos escondam necessariamente, mas moldam, determinam e reorganizam quem somos à superfície – tal como o Santuário, por tantos pincéis desenhado.

As almas mais atentas, procuram esta essência que há em nós, onde mora o Mais. Estas almas sentem e encontram a “ervilha” entre os colchões, não importa quantos sejam, nem há quando tempo estejam montados.

E, depois, falta procurarmos nós também para a poder oferecer.

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tu

os elefantes também dão as mãos

Hoje, como já há algum tempo decidi que queria fazer, fui conhecer a casa das Escravas do Sagrado Coração de Jesus por intermédio de uma das irmãs que nela vive. Numa semana de intenso trabalho, soube-me bem este presente de poder parar, cuidar do espírito, falar e ouvir com o coração.

Saí de casa precisamente 10 minutos antes da hora combinada para o encontro. O dia hoje estava muito bonito, convidava a um passeio. Dias lindos estes, que me remetem ao meu primeiro dia no mundo, segundo sempre me descreveram os meus pais: frio e solarengo. Dias lindos estes, que aquecem a alma em suaves prestações, desde o sol discreto no calor, às camadas de roupa que acabam por fazer o seu papel de lareira particular. Eram cinco horas em ponto quando fui recebida numa sala pequena, simples e confortável, bem à medida do que me apetecia.

Tocou-me sentir tão na pele o que faz a linguagem do coração. De repente, em menos de uma hora, já não somos duas estranhas que cruzam a mesma cidade. De repente, ultrapassamos etapas gigantes e falamos com o que é mais nosso. Tocou-me, também, algo que tenho vindo a experimentar nesta terra que é Espanha (ainda que haja muito barulho catalão) e a que me tenho vindo a afeiçoar: a informalidade no trato. A linguagem não só é coloquial como é familiar: busca de proximidade. O estranho que nos dirige a palavra olha nos olhos e fala com segurança: sinal de que estamos ao alcance dos outros. Todos nos tratamos por tu, como também tratamos a Deus por Tu: busca e sinal de intimidade.

Há algo a aprender com este quebrar de barreiras imaginárias, fictícias e que atravancam as relações. Há ainda mais a buscar na tentativa de proximidade com os outros e de vida no mundo real.

Estarei eu próxima? E tu, também estás próximo(a)?

Centro

Castellers, tradicional pirâmide humana, Barcelona - La Mercè

Hoje esteve um dia de chuva, daquela torrencial, em que por momentos achamos que o céu vai desabar sobre nós qual cascata selvagem, e as nuvens parecem tão perto que quase as podemos tocar.

Caminhando estrategicamente entre as poças e tentando a todo o custo manter-me dentro da zona de protecção do guarda-chuva, apercebi-me que nestes dias, apesar de ver um ângulo muito menor e absorver menos claridade do que me rodeia, os meus olhos fixam outros pontos, a minha cidade ganha outros contornos. Fui assim navegando na ideia de que nem sempre tenho a perspectiva mais verdadeira da realidade, simplesmente porque não está no meu raio de visão.

Quando dou demasiada importância à minha perspectiva, quando me ponho no centro, torno-me mais intolerante, mais defensiva e egoísta. Há um egoísmo inato (e a meu ver necessário) ao ser humano, já ouvi diversas vezes, aquele que nos faz protegermo-nos a nós próprios e lutar pelo que queremos. Penso que aquilo que nos é inato não se resume ao egoísmo; é também a busca de Algo maior.

E se, no nosso centro, também dermos espaço aos outros? Se no meu essencial for aprendendo a criar um santuário em que cabe mais do que uma perspectiva, em que há uma sala confortável para a tolerância, que vai sendo mobilada com o passar dos anos, ao invés de desprovida do que a ocupa para se mudar para a sala onde vivo apenas eu? Se decidir ver que o meu centro é aquilo que me sustenta, e tiver a humildade de perceber que quem me sustenta não sou apenas eu e as minhas “verdades”?

De facto, ao crescer (ou melhor dizendo, ao envelhecer, porque o tempo pode passar sem que eu realmente aprenda algo), a vida e o que ela me trás pode entrar em mim e eu escolher um de dois caminhos: tornar-me mais fechada e defensiva, ou mais aberta e tolerante.

Anos mais tarde, escondido num lugar recôndito do meu coração, espero encontrar o calor de ter lutado sempre pelo segundo caminho.

Livro dos dias VII

O Fundo do Mar - À procura de Nemo

Este fim de semana estive num jantar espanhol. Em casa de uma amiga, juntaram-se tantas pessoas como regiões de Espanha, e a paisagem humana ia desde Sevilha e Cádiz no Sul; Corunha a Leste; Madrid e Valladolid no Centro; Barcelona a Oeste. Bairrismos à parte, a noite fluiu com sincera naturalidade e o denominador comum era, de facto, uma “hispanidade” intrínseca, ainda que com contornos e sotaques particulares. Vi-me, de repente, imersa numa realidade de tapas e “algo para picar“, tortilla y empanada, vinho e mais vinho, conversas em volume alto. Quando entrei, conhecia apenas uma das habitantes da casa; ao sair, conhecia cerca de vinte espanhóis com quem conversei, pratiquei, o melhor que pude, o idioma à velocidade característica de nuestros hermanos, piquei algo, e até dancei. E não aconteceu por minha causa. Na verdade, a facilidade com que me receberam e o interesse genuíno que demonstraram por uma portuguesa, que aqui está a fazer um doutoramento, fizeram-me sentir à vontade num grupo novo, o que não é óbvio para mim.

Quando voltei para casa (a pé, como quase todos o fizeram), entre o ar frio da noite, não pude evitar sentir um aconchego especial. Percebi porquê.

Há qualquer coisa nos povos latinos, por muitas diferenças que tenham, que fala ao meu coração e me faz sentir em casa. Mais ainda, há algo de humano acima de todas as especificidades locais, algo comum a todos e que faz com que a proximidade de uma conversa quebre todas as barreiras de língua ou cultura, e ponha em cena apenas aquilo que nos une: o sentimentos de um ser humano. E por isso tanto maior o significado da maravilhosa diversidade que nos é dada como companhia. A humanidade é um mar azul de esperança a perder de vista, um clássico ondular que embala e acolhe. Mas este azul tem diferentes tonalidades. Quanto mais fundo nele viajo, mais diferenças aprendo e melhor posso conhecer as espécies de algas, corais e peixes que enriquecem o oceano e lhe conferem uma beleza irrepetível. No entanto, é num só mar, infinito, em que vivo.

Ao fim do dia, fui à missa com a minha amiga S. Tentei acompanhá-la e, pela primeira vez, de facto rezar em espanhol. E nunca para mim fez tanto sentido.

traços e tintas

Hoje ficou no meu pensamento a cinza do dia de ontem.

Segunda-feira, 12h: Inauguração do ano académico do programa de Doutoramento em Economia da Universitat Autònoma de Barcelona (IDEA -UAB). Sala cheia, púlpito com microfone, cadeiras da frente reservadas – por meio de um papel A4 impresso 5 minutos antes da sessão – para nomes sonantes (para quem é versado, o que ainda não é o meu caso).

Depois de introduções e apresentações, algum palavreado formal e referências a pessoas que não conheço, entregou-se o palco à presença dos oradores, economistas de formação e profissão. O segundo professor, israelita, chamou-me à atenção desde logo pela sua aparência física, visivelmente diferente e humildemente seguro à sua maneira. Uma vez agarrada, a minha mente absorveu mais facilmente todo o discurso cativante e descomplicado deste senhor com quase 25 anos de carreira. Explicava como romper com axiomas teóricos de forma a construir uma investigação mais realista, como integrar o conhecimento do passado com as necessidades do presente e antecipação do futuro. Tornava palpável a realidade com que sonham muitos investigadores: trazer de facto algo de novo, porque se reinventa e adapta o antigo. Todo o discurso envolvido numa postura suave e humilde mas convicta do seu trabalho.

Deu-me a imagem viva da diferença entre experiência e sabedoria, entre sabedoria e criação, entre criação e abertura.

Acendeu-se assim uma fogueira no espaço ainda muito por preencher do meu intelecto. Gosto desta maneira de estar e de se revelar. Gosto de olhar para o trabalho como uma pintura que alguém vai ver um dia. Ainda que demore muito tempo a preparar as tintas, a escolhê-las, a aprender os diferentes tons e a saber jogar com eles, a pintura pode mudar a estética de uma era.

Vai uma matinée?

E agora um pouco de leveza:

"Provavelmente, a melhor equação do ano"

Hoje, devido à entrega que temos para amanhã, o grupo em peso ficou numa sala comunitária a tentar resolver individual/colectivamente os problemas. Foi a nossa primeira tarde de trabalho conjunto.

O “Problem Set Number 1” é composto por 10 exercícios (com alíneas) de Matemática altamente abstracta, demostrações, desigualdades, desdobramentos de casos e provas quase ao nível do 1 + 1 = 2 (querem provar isto axiomaticamente? Vá lá, é giro!)

Não me envolvi imediatamente na discussão. Quis primeiro ler e ver o que (não) percebia – até porque era das únicas que ainda não tinha sequer olhado para o enunciado (shame on me). Fui fazendo os exercícios ao meu passo, fui falando e partilhando formas de resolver, fui recebendo ajuda. Durante toda esta actividade, fiquei a pensar que aquela tarde poderia dar um filme condensado, prensado em tempo e local e até personagens. Tínhamos de tudo:

1) O herói: aquele que resolve todos os problemas com mais uma demonstração, aquele que sabe mesmo da poda e vem para ajudar;

2) O guru: aquele sem quem ninguém avança, que não só nos dá o empurrão como também estabelece uma linha filosófica entre a escrita Matemática e a realidade;

3) O Merlin: absolutamente essencial. Merlin sabe precisamente o que o Professor quer dizer com o enunciado, o que ele deve estar a pensar e até adivinha as datas dos próximos “Problem Sets” com base numa intuição bastante apurada e um algoritmo sofisticado que brinca com o calendário;

4) O “traz-coisas”: primeiro o livro, depois outro, depois os slides. Mais tarde bebidas, e ainda café, há alguém que pensa em todos nós.

5) O vilão: o melhor para o fim. Aquele que quer introduzir tópicos de conversa como “Vamos à praia este fim-de-semana?” ou “Quem quer ir lanchar?”. Persuasivo e subtil, desvia para paisagens mais interessantes.

Passei o filme na minha cabeça à vinda para casa. Revi as personagens e, generalizações à parte, senti que hoje conheci melhor cada um de nós e o nosso grupo enquanto tal. E essa foi a parte que melhor se instalou em mim.

Gostei muito desta tarde de trabalho e agradeço a todos os que aprendi com eles, de matéria e mais. Foi uma grande ignição e acelerador para o meu estudo!

Acompanha-me

"I will walk with you"

Hoje, depois de mais um dia de aulas de manhã e mudanças à tarde (desta vez a parte mais “pesada”), tive a felicidade de ser encontrada por uma cena verdadeiramente tocante.

Ia a pé ao virar da esquina para a Carrer de Santalò (já quase a chegar a casa dos amigos), cheia de pressa desnecessária, quando fui obrigada a parar. Olhei em frente e vi o seguinte quadro: uma senhora já com uma certa idade, muito bem arranjada, era sustentada por duas mulheres novas, uma de cada lado. A senhora não podia andar sozinha, uma vez que o passar dos anos e um problema de saúde a deixaram com uma curvatura acentuada nas costas, que a faz pender para o lado esquerdo. Então, as raparigas seguravam os seus braços e tronco, como se tratassem de delicadas porcelanas, e acertavam o ritmo dos pés com a cadência suave da sua senhora. As três caminhavam e conversavam com calma, sobre trivialidades cativantes e enriquecedoras. À vez, falavam do bairro, das árvores, das pessoas que passavam, do que tinham cozinhado. Ouvi toda a conversa (num sério ataque de coscuvilhice, mas acho que me fez bem). Respirei o ar daquele passeio que tinha em comum com elas, até as deixar para seguir o meu trajecto. Fiz tudo o que faltava de caminho lentamente, tentando replicar o passo daquela senhora tão bonita. Senti, nesta pintura onde passei por breves instantes, a honestidade que é saber e querer acompanhar o outro, e deixar-se ser acompanhado. Acompanhar devolve a calma e dignidade ao caminhante, porque não põe expectativas desmedidas, nem se põe na posição de ensinar ou ditar o caminho.

As três amigas continuaram a pé, simplesmente porque a senhora ainda gostava de passear.

A minha cara encheu-se de um sorriso inevitável, mesmo antes de chegar a casa. Que presente tão extraordinário que Deus me deu!