[se sou quem sou, a ti o devo]

 

summer_london
Gordon Square, London

Today I celebrate you – the uncommitted, disenchanted, frivolously indifferent foreigner to the comings and goings of my daily life. You, unknowingly present at the edge of the bottomless deep – the undedicated words, intentional dismissals, prompt criticisms and limited horizons. Your impactful smiles, bereft of momentary intention. Never was it too much.

None of the most important decisions would have arisen had it not been for the faulty pavements you lay before me. Summer shall come, to the patient and patiently trained.

Thank you. [Obrigada.]

PS: “Se sou quem sou, a ti o devo”, in Woytila Musical.

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espreitando apenas

quanto se aprende espreitando sem que se apercebam?
quanto se aprende espreitando sem que se apercebam?

Tantas coisas para dizer, tanto sentimento contido
Tantos pensamentos que surgem e se escapam, amarrados a um vento forte renascido da brisa suave que dançava comigo, e agora foge sozinha
Já não se esconde nos escombros de uma cidade abandonada
Já não se desculpa atrás de intempéries, imprevistos violentos e avassaladores

O vento mudou o rumo da minha vida, e eu mudei-me com o vento. Mas há outros ventos, outras temperaturas
Mais familiares e presentes no passado
Mais vazias porque já não me vejo neles
Mais longínquos, apesar de tatuados em mim

E sopram ainda, tão ténues que se podem confundir
Com os leves passos de um oceanode memórias

extensive vs. intensive

introspecção
introspecção

A vida dá voltas muito inesperadas.
Os dias são tão diferentes entre si, e nós sempre com a tendência para olhar para o todo como uma grande massa da mesma coisa. Quantas vezes dizemos: “está tudo na mesma” ou “não há novidades”? Apercebemo-nos apenas da margem extensiva – a quantidade de tempo que passa, de dias que escorregam pela torneira, de coisas que fazemos, de outras tantas que deixamos de fazer, e ainda daquilo que simplesmente acontece.
Esquecemo-nos, tão infantilmente, das viagens inigualáveis que embarcamos no nosso interior. Da diversidade de estados de alma pelos quais passamos num mesmo dia. Percorremos caminhos que eram por nós impensáveis, evoluímos tanto numa medida que não sabemos qualificar, porque nos treinamos a olhar sobretudo para o podemos quantificar. A margem intensiva da vida é tão maior e mais importante – porque é nela que somos.

Apanhemos o fio do (complexo?) novelo do auto-conhecimento. Alegremo-nos com as mudanças interiores, tanto como com as exteriores. Evitemos o desbarato emocional, o armazenamento a quotas dos sentimentos que nos fazem humanos e pedem mais luz.

Livro dos dias XXI

Há qualquer traço de mistério nesta cidade.

Um pó invisível, uma cinza discreta e morna, um nevoeiro ténue que envolve a vida e as pessoas daqui. Como um toque de magia, os episódios, as caras, as dinâmicas elípticas entrecruzadas por vidas tão ímpares, apresentam-se vindos de todo o espectro possível da imaginação.

Há de tudo, sente-se um cheiro a variedade e a possibilidade no ar. No entanto, a cidade flui sem demais tropeços, na harmonia inventada pelo ar que a todos acolhe.

E a vida segue sempre, ao ritmo do pó que somos nós.

Outras Caras

Há uma cidade gigante, que se chama Barcelona, que começo agora a conhecer.

É uma cidade que adormece e acorda com ritmos diferentes, veste-se de cores de todo o mundo e fala idiomas que aqui não pertencem. Uma cidade bonita, mas de outra maneira, não tão óbvia e às vezes até assustadora. Um pouco escondida do quotidiano, se assim o quisermos, ela vive e respira tão ou mais intensamente que os outros ambientes, mais conhecidos de todos.

É uma cidade de imigrantes, de sonhos perdidos, de inesperados no caminho, de encontros e desencontros que pintam a paisagem de real humanidade que aqui se contempla, passo a passo, para não perder pitada.

É uma cidade onde se confinam infinitas culturas, onde coexistem continentes e séculos de separação, agora separados apenas pelo pano de uma tenda de vendilhões de rua. Neste humor da cidade, habitam, lado a lado, o belo e o feio, a proximidade e as costas voltadas, a verdade e as máscaras, mas acima de tudo a autenticidade de quem não escapa a ser inexoravelmente quem é.

Frestas

Numa noite escura, poderá guiar-te um farol

Num dia cinzento encontrarás um raio de sol

Numa praia aberta, há a companhia do mar

Depois da onda tempestuosa, pode a calma chegar

Num desconhecido, poderás encontrar o calor de um coração

No passageiro do lado, a partilha de uma oração

Na luz o escuro, na floresta uma clareira

No frio, a esperança que ateia a fogueira

No improvável segredo, criarás um laço eterno

Da fortaleza de um rochedo nascem areias de deserto

Da procura incessante, nasce o descanso do encontro:

Encontro-Te a Ti

Do outro lado – I

Lisboa, do outro lado

Hoje, como todas as quartas-feiras (dia em que tenho aulas de manhã à noite, literalmente), foi um dia particularmente cansativo. No entanto, tenho de confessar que foi a primeira vez que senti um cansaço agradável e reconfortante depois de um dia destes.

Entrei na última aula do dia (a que custa mais) à espera do habitual rol de teoremas e demonstrações que eu nunca consigo acompanhar a 100%. Sentei-me, abri o dossier, comecei a ouvir a voz do professor e reparei que, hoje, fazia um aviso categórico: esta seria a aula mais difícil de todo o semestre, aquela que nenhum de nós iria acompanhar, que teríamos muito que ler (e várias vezes) até o conseguir. “Não ambicionem perceber o que vos vou dizer hoje” avisava ele, num sorriso disfarçado de quem um dia já esteve no nosso lugar. A minha reacção foi imediata: as “antenas” despertaram, o cérebro acordou e a mão direita escreveu com outro vigor. Desfrutei desta aula como de nenhuma outra desta cadeira até então, e saí com a sensação de que percebi muito mais do que esperava.

À vinda para casa, no comboio (ferrocarril), vim a pensar neste efeito mágico que um olhar diferente pode ter em nós. A mesma experiência, rotina, momento, vivido vezes sem conta, pode tomar um sentido renovado e refrescado, com mais sentido até. Um olhar diferente, motivado por algo exterior ou por uma vontade nossa, derrama um banho de espuma que lava e dá brilho ao que dantes não se via com clareza. E às vezes é tão fácil, tão alcançável!

Gostava de saber experimentar mais vezes esta renovação simples de atravessar o rio e ver do outro lado da margem. Atravessar o rio, e ver o essencial.