::Novos::horizonteS::

imprevisivel
imprevisível

Depois de tanto tempo achando que sabemos o que precisamos, quem somos, como interagimos com o mundo, algo muda. Sabíamo-nos tão arrumados e previsíveis, e alguém ou alguma coisa nos abre os olhos para qualquer coisa diferente. Algo que entra por uma janela descuidada ou esquecida. Algo que, lentamente, faz caminho em direcção a nós, descobrindo uma abertura onde já só pensámos haver muros e defesas. Uma abertura que não tínhamos considerado, não tínhamos vivido. E por isso, não tínhamos adornado e revestido dos nosso preconceitos e expectativas, imagens estáticas do que julgávamos ser a felicidade.

Por outro lado, também nunca havíamos explorado caminhos dentro dessa janela. Não fazemos ideia onde nos podem levar, nem podemos estar certos de como nos farão sentir: se vamos gostar, se não vão surpreender, se têm algo para nos dar ou se temos algo a dar neles.

É precisamente a incógnita, a terra por desbravar, que conferem uma carga de Liberdade e Ingenuidade a este novo caminho. A imprevisibilidade pode trazer uma calma nunca antes pensada.

Advertisements

Perspectivas

perspectiva num desenho de criança

Quantas vezes já mudámos de opinião?

Sobre o importante e o insignificante, mil vezes os argumentos se redescobrem e abrem caminho a um novo olhar sobre a antiguidade do dilema. Mas a verdade é que dar sentenças é algo inato ao ser humano. Porque é mais fácil opinar do que compreender, impor do que aceitar, julgar do que acolher. Porque a natureza humana depende de algo concreto, precisa de alicerces fortes para se construir, ainda que por vezes não sejam verdadeiros. A incerteza provoca medo, a mudança é muitas vezes sentida como ameaça.

Como reconciliar o carácter com a tolerância? Como buscar a coerência num ser em constante aprendizagem?

Penso que muita desta dicotomia nasce do facto de sermos limitados no tempo e no espaço, esquecendo-nos que o somos. A cada altura da nossa vida, vemos apenas parte da fotografia, sabemos apenas parte (às vezes muito pequena) da realidade e escondemo-nos nas malhas que o tempo nos tece. Vemo-nos mais de perto porque estamos fisicamente circunscritos ao nosso corpo. Por isso é difícil e requer esforço o acto de sair de nós, percorrer o caminho dos que caminham a nosso lado.

Espero, à medida que vou crescendo, nunca esquecer que o mundo é bem mais do que o meu mundo. Espero poder, com o passar do tempo, aprender de quem é mais honesto do que eu: consigo e com a vida.

Agora, vemos como num espelho,
de maneira confusa;
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.

I Cor 13, 12

Rodagens

De vez em quando, dou por mim a reviver mentalmente cenas da minha vida. Umas mais distantes, outras que ainda não sei o fim, todas aparecem sem pedir licença.

Pautas soltas de uma música irregular e em processo de constante (re)composição, estes momentos descontextualizados alojam-se no leitor da mente. Fazem-me voltar a sentir, na pele, aquilo que senti quando passei por eles.

Confesso que há memórias que me trazem algum desconforto. Há memórias que tocam em pontos nevrálgicos e fazem estalar a “casca” do jardim que se quer regar com cuidado. Como qualquer jardim, há flores mais vistosas, mais bem alimentadas; e outras rastejantes, com picos ou que até se alimentam de outras. Assim se apresentam estes pequenos filmes.

Há memórias que me deixam nostálgica, outras que me causam pena e pesar, saudades, revolta já quase pacificada. Há momentos que trazem vontade de perdoar e ser perdoada. Há dias que me lembram tristeza; outros desnorte; outros ainda, encontro e paz.

Mas, na rodagem deste filme, tenho aprendido que sonhar e descobrir o muito que ainda há para dar é francamente mais apaziguante, faz-me mais feliz e ensina-me, cada vez melhor, quem sou.

Galeria

Galería N2, Carrer d'Enric Granados, Barcelona

Na minha rua (que é consideravelmente comprida), quando caminho em direcção ao centro da cidade, passo por mais do que uma galeria de arte. Fico sempre com vontade de entrar. Entre o pé direito a perder de vista, as paredes limpas de um branco paradoxal, os quadros, emoldurados ou não, como pequenos fragmentos de vida, há qualquer sentimento de mistério que me atrai numa galeria.

Não deixo de admirar os artistas pela enorme coragem que é expor a intimidade do que lhes vai dentro, numa tela à mercê da opinião e juízo exterior. Mais, inspira-me este acto de mostrar ao mundo quem se é, com verdade e respeito, com um espaço próprio e uma dignidade consistente.

Também a minha vida pode ser uma galeria, se souber ir mostrando quem sou dentro de uma parede branca, sem rascunhos ou ilógicas expectativas, mas com a busca sincera do que tenho para dar.

“Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.” Bento XVI, discurso dirigido aos artistas portugueses, Maio 2010

Espelho

Hoje houve a primeira desistência no meu programa de Mestrado/ Doutoramento em Economia na UAB. O P., espanhol de Málaga, foi das primeiras pessoas que conheci quando aqui cheguei. Muito extrovertido, com o sotaque característico do sul de Espanha, é alguém que não passa despercebido pela sua presença forte e evidente desejo de comunicação.

Eram 16h da tarde e estávamos sentados a trabalhar na sala comum do programa (onde estudamos, trabalhamos, conversamos, recebemos cartas, tomamos café e até podemos almoçar, se trouxermos qualquer coisa de casa). Entra o P., com cara fechada e sombria, como ainda não tinha visto, nem associava àquela alma expansiva. Diz que quer falar com todos. Conta-nos a notícia: que vai mudar para outro programa, menos avançado, um passo intermédio entre a licenciatura e o Mestrado/ Doutoramento. Que desde que começou o programa se sentia fora do seu “elemento” e que, desde que tomou a decisão de sair, se sente muito mais em paz. Que não é este o momento para fazer este Mestrado. Poucos de nós tivemos reacção. Senti-me triste por ter já uma despedida para fazer, mas gostei de o ouvir dizer que a decisão o pacificara. Reparei, no entanto, que as pessoas lançavam olhares descodificáveis entre si, mais do que o enfrentavam a ele. Desenhou-se para mim, então, a nítida imagem do P. a segurar um enorme espelho onde todos nos poderíamos ver, se nos déssemos a esse trabalho. Um oásis no meio do infinito deserto de problemas de Matemática, Estatística e Macroeconomia Dinâmica.

Quando saiu da sala, o gelo foi quebrado por uma chuva repentina de opiniões, que em tão pouco tempo e com informação de tal maneira escassa já conseguiam ser ou contra, ou a favor, ou até preditivas do resto da carreira dele. Senti que o momento em que P. saiu da sala foi a deixa para cada um de nós se poder dar ao luxo de não olhar de facto o seu reflexo, não relembrar “o que me trouxe aqui?”, não aproveitar a oportunidade para assentar mais uma fileira de tijolos, ou partir pedra para continuar a obra de outra maneira, mais construtiva, mais NOSSA.

Não me quero deixar levar por essa deixa, como quem deixa o desenho na areia ser levado pela onda antes sequer de o apreciar. Aceitei o desafio do P.: fiquei a pensar no meu caminho para aqui chegar, na minha paz (ou ausência desta) e onde está assente.

E assim, quando cheguei a casa, olhei-me ao espelho de corpo inteiro (recém-montado) e vi que ainda tenho muito para aprender!

Who is that girl I see

Staring straight Back at me?

Why is my reflection someone I don’t know?

Somehow I cannot hide

Who I am

Though I’ve tried

When will my reflection show

Who I am inside?

Reflexion, banda sonora do filme animado da Disney – “Mulan”