Livro dos dias XIII

outro espectáculo, Jazz Si, Barcelona

Na sexta-feira, depois do primeiro exame da época e por isso da minha estreia em avaliações a sério, fui a um espectáculo de flamenco ao vivo.

Através de pessoas que conheci na escola onde danço, soube que um bar, pequeno e pitoresco, de seu nome “Jazz Si”, que frequentemente apresenta espectáculos de flamenco, jazz, e outros estilos, desde salsa até rock. Pensei que seria o programa ideal para fazer depois de um exame extenuante. Era algo que andava à procura desde que cheguei a Barcelona, atrás de cada esquina e em cada cartaz anunciando espectáculos. Ainda não tinha encontrado a combinação ideal entre um espectáculo pouco turístico e de qualidade.

Depois de um exame de três horas e meia, fiz-me ao caminho esgotada e com vontade de dormir – porque estava convicta de que não me ia arrepender. Às 21h estava eu a chegar ao dito bar. Num sítio minúsculo para tantos amantes do flamenco, as pessoas estavam literalmente penduradas nas escadas e “andar” de cima – que era praticamente um corredor – e ocupavam cada centímetro da plateia, em cadeiras ou mesmo no chão. Decidi infiltrar-me, qual concerto no Pavilhão Atlântico, até montar acampamento à frente do palco, precisamente ao lado de onde os artistas entravam.

Ia à espera de um concerto de guitarra relativamente curto. Fui completamente surpreendida: não só havia guitarra (tocada por um português), como cajón, voz e… dança! Durante duas horas, que as senti como uma semana de férias, fui transportada até uma rua quente e barulhenta de Andalucía, que respirava sotaque, costumes e expressões daquela terra, música e baile com uma garra contagiante.

Ficou em mim, até hoje, um pensamento que tenho vindo a notar mais e mais no meu dia-a-dia. Quando acabei eu o meu dia de trabalho, preparavam-se outras pessoas para começar o seu. Assim, o meu momento de descontracção foi preparado e trabalhado por alguém, durante horas de ensaios e de frustrações parecidas com as minhas. Pertencemos sempre, ainda que em silêncio, ao serviço que os outros nos oferecem, e ao serviço que entregamos aos outros. Gostaria de encontrar sempre uma paixão semelhante à que me tocou como espectadora, nas alturas em que estou em palco naquele que é o meu trabalho.

Que eu saiba olhar sempre para o que faço, nas poeiras dos dias áridos, como um sonho que se realiza em mim.

Advertisements

“y nos vamos”

Escuela José de la Vega, Barcelona

Esta semana comecei a ter aulas de flamenco. Por coincidências entre pessoas conhecidas (ou como diria a minha amiga J., “serendipities“), e depois de muito procurar pelas escolas de dança de Barcelona, a Escola José de la Vega apareceu do nada na altura ideal, e quando já estava a sentir uma enorme necessidade de “voltar ao activo” neste campo.

Desde pequena que sou fascinada por dança. Todos os tipos de dança, todos os dançarinos, todos os ambientes em que se passeiam (com o seu lado solar, mas também lunar) despertam os meus sentidos e falam-me ao coração de uma maneira muito especial. No flamenco, em particular, vejo uma maneira de expressar todos os sentimentos fortes e grandes que tenho consciência de guardar (e às vezes até esconder) do mundo que me rodeia. O flamenco encerra em si uma força interior e uma individualidade marcada, que pede música, pede intensidade e emoção.

Nesta dança, o lado lunar tem um expoente elevado a pureza, porque se aceita como é, porque se revela sem medo e na crueza do sentimento. O flamenco ajuda-me a descobrir mais e melhor quem sou, a aceitar-me também. Permite-me canalizar os impulsos de vida, contida e fechado no corpo, numa harmonia de movimentos .

Há uma expressão muito usada nos ensaios e aulas de flamenco. Assim que se sente a música aproximar do momento crucial que nos empurra para a frente, diz-se “y nos vamos“. Como quem mergulha no desconhecido e se destranca de pudores e vergonha. Como quem espera o infinito mais do que se fecha no familiar.