:::Closer:::

Há três anos que a eternidade toca a minha vida a cada minuto que passa.

Há três anos que o meu mundo está em todos os lugares, e em todos os lugares encontro lembranças de uma vida que começou a minha.

Há três anos que o Céu desceu sobre mim e encurtou a distância entre o meu corpo e o Desconhecido.

Há três anos, que um abraço terreno se estende sobre os meus passos. Um abraço infinito que abarca tudo o que passou. Um abraço que trepa o abismo e segura o que está por escrever.

Em cada dia, cobre-me um manto de paz,

Grita-me uma voz de saudade,

Ampara-me uma alma presente,

Sem limites, sem paragens, sem dúvidas…

No dia dos Anjos da Guarda, há um Anjo que reza por mim.

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Travessa

Quando era pequena, havia um almoço semanal em casa da minha avó.

O ritual era sempre o mesmo. Acordávamos Domingo de manhã, com o conforto familiar de mais um dia passado entre tios e primos, e avó. Tomávamos o pequeno-almoço e arranjávamo-nos – era o único dia da semana em que os quatro tínhamos os mesmo ritmos, os mesmo tempos. Os quatro partilhávamos a mesma rotina e eu sentia-me mais integrada, mais pertence, mais igual à minha família.

Saíamos para ir à missa. Na maioria das vezes, eu não prestava grande atenção. Mas lembro-me de que gostava de sentir que todos rezávamos o Pai Nosso ao mesmo compasso e no mesmo tom. Seguíamos para a casa que tanto nos acolhia. Uma casa que todos sentíamos um pouco nossa, em que cada um tinha a sua zona preferida e os seus segredos, partilhados entre hortas de salsa e subidas ao telhado.

Havia um momento importante, que por alguma razão sempre pautou a minha respiração destes Domingos: a altura de levar a travessa para a mesa. Era quase sempre a minha prima mais velha que tinha essa responsabilidade. Prestava atenção à viagem da travessa como se de um tesouro se tratasse, um tesouro que um dia teria o privilégio de levar.

Até que chegou o dia: o almoço era cozido à portuguesa. A travessa era grande e pediram-me que fosse eu a levá-la. Acho que ninguém sabia o significado que aquele pedido tinha, e por isso enchi-me de coragem, respirei fundo e tentei que não se notasse. A meio do caminho, os nervos pregaram-me uma partida: tropecei e caí, com o cozido a rebolar indecentemente sobre os meus sonhos de protagonismo. Fiquei aflita, mas os dois segundos de paragem para ver o que se passava desenrolaram-se numa explosão de riso da minha família, com piadas que quebravam o gelo (“este tempero de tapete vai ficar óptimo”).

Ainda hoje às vezes sinto o “peso” da travessa que me foi confiada. Agora, esta travessa viaja com mais frequência, entre as duas casas que considero minhas mas que mudam a cada dia que passa. Agora, esta travessa transporta-me a mim, ao meu crescimento, aos meus sonhos e páginas escritas da memória.

Foi bom, neste verão, conhecer melhor este tesouro que levo, voltando às raízes e olhando de outra forma, com outro distanciamento. Foi melhor ainda começar a aprender a deixar que levem a travessa comigo, a deixá-la cair, a ir retirando o peso para ficar apenas a essência.

Porque nestas quedas, o sabor do tapete dá cor e forma à nossa vida!

Inspiração (I)

Monte Everest, fronteira entre China e Tibete

Hoje, em conversa com a minha amiga L., catalã de gema, fui começando a aprender um pouco mais dos costumes e tradições da época Natalícia nesta terra. Costumes esses que, com o passar do tempo, se vão perdendo ou globalizando, ou seja, misturando com tradições de outras terras (ou de nenhuma). Tornam-se restolho transformado do que outrora foi uma grande seara de trigo, fielmente regada e cuidada.

Ouvia-a falar, com enorme interesse, e ia sentido uma certa pena ou tristeza na maneira como se rendia à modernização do Natal, mesmo dentro do seu núcleo familiar. As crianças já não cantam os versos aos avós, já não se entoam hinos depois da Missa do Galo, acompanhados de chocolate quente e bolos. Partilhei da sua saudade, compreendi a ausência desse gosto familiar.

E pus-me a pensar se estes hábitos que se vão perdendo (com certeza no meu Natal também os há), darão lugar a outros hábitos lançados pela nossa geração. Pequenos passos num caminho começado pelos nossos antepassados, que na sua dedicação e fidelidade nos ensinaram a criar dentro do quotidiano. Da herança que recebemos, podemos em consciência moldar as gerações futuras, seguindo de perto o exemplo que nos criou, para recriar formas de relação e hábitos repetidos numa dança infinita, mas que se move ao som de novas batidas e diferentes ritmos.

Passamos o testemunho, de uns para outros, de forma a que juntos trilhemos um caminho longo, íngreme e rumo a algo maior, de onde a vista seja arrebatadora e inspiremos o ar daqueles que nos inspiraram a voar mais alto.

Livro dos dias VIII

Hoje voltei de viagem, depois de 4 dias passados em casa. Venho cheia de uma mistura de emoções fortes, de cheiros familiares e conversas edificantes. Cozinhados com os sentimentos de sempre e os sabores caseiros; lugares e encontros que me lembram os contornos do desenho da minha vida.

De regresso, enquanto cruzava os céus e apreciava a paisagem ibérica vista de cima, do conforto de um avião que me leva e traz dos lugares onde respiro o ar que me alimenta, tive a graça de descobrir um novo sentido para a minha mudança de vida: é que, agora, tenho duas casas.

Uma casa que me conhece e acolhe quem sou, outra que me projecta para descobrir novas facetas de mim. Uma casa de alicerces, outra casa de novos materiais. Um casa quente e confortável, outra moderna e (ainda) minimalista. Uma casa de caras e corações enraizados, outra de caras e corações por conhecer melhor.

Não digo que é fácil gerir os mantimentos das duas casas. Não é trivial para mim manter a calma e a paciência de esperar por aquilo que não posso ver e tocar, acompanhar no momento; menos óbvio ainda é caminhar numa casa nova com os pés gastos de outro chão. Mas as minhas duas casas, com tamanhos e em fases de construção diferentes, dão-me o abrigo necessário para procurar ser mais e melhor. E nas viagens que percorrem os dias em que junto as portas das minhas duas casas, é-me oferecida uma paragem, na qual o tempo é eterno e posso apenas olhar “de cima” e aperceber-me das impressões que construo entre as duas moradas.

Duas casas em construção; o abrigo de uma única alma.

:::Elegia:::

Quero hoje, serenamente
Lembrar tudo aquilo que foi
Passado o passado, pregado no meu coração
Atado ao prado verde dos dias de então

Na discreta pintura em mim renascida
Guardo uma história calma e decidida
Guardo uma espera pensada e agarrada
Por algo que dá vida à vida vivida

Em pequeno, a aventura pautada no Oeste
A Primavera repousada na sombra de um cipreste
Ritmada pela natureza, naturalmente
Cresce um chão de estrutura diferente

Mais tarde o Verão instalado e luminoso
Deu frutos duradouros no presente
Sem pressa de chegar, chegando ao lugar certo
Vendo a árvore florescer onde havia deserto

Mudaram as cores, chegado o Outono
Em tons de cinzento de sabedoria tecido
Contava histórias que embalavam o sono
Demarcando o território da escolha com sentido

O Inverno rigoroso roubou dias ao Tempo
Chegou antes, antigo e amarrado ao peito
Consigo devolveu a vegetação ao vento
Sem nunca abalar o tronco escorreito

Na adega de memórias, guardo a sua vida
No fermento das palavras, a história construída
Como uma chama no peito ardente
Guardo a esperança do reencontro para sempre

Da terra trouxe a semente
Semeando em vinha fecunda
Na terra deixa o coração verdadeiro
Querendo os que o querem em saudade profunda