Livro dos dias XXI

Há qualquer traço de mistério nesta cidade.

Um pó invisível, uma cinza discreta e morna, um nevoeiro ténue que envolve a vida e as pessoas daqui. Como um toque de magia, os episódios, as caras, as dinâmicas elípticas entrecruzadas por vidas tão ímpares, apresentam-se vindos de todo o espectro possível da imaginação.

Há de tudo, sente-se um cheiro a variedade e a possibilidade no ar. No entanto, a cidade flui sem demais tropeços, na harmonia inventada pelo ar que a todos acolhe.

E a vida segue sempre, ao ritmo do pó que somos nós.

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Livro dos dias XVIII

mão inesperada

A diferença chega pela mão inesperada.

A cidade é a mesma, as arestas e frestas continuam intactas e dispostas no mesmo pano sem fundo, com mil fundos dos padrões de ontem e de sempre. Mas os olhos são outros.

Os passeios iguais, alinham-se em formatura militar e sempre servil a quem por eles passa e deixa, na sua superfície, a impressão pendular mantida no interior. Mas as mãos sentem a novidade.

As estradas albergam o mesmo trânsito, os caminhos vão parar aos mesmos lugares, os lugares impelem-me para os mesmos trilhos. Mas o coração está revestido de outra luz.

A diferença vem, para ficar, porque não quero deixar partir o sentimento de respirar o ar da aurora rasgada entre as trevas.

Outras Caras

Há uma cidade gigante, que se chama Barcelona, que começo agora a conhecer.

É uma cidade que adormece e acorda com ritmos diferentes, veste-se de cores de todo o mundo e fala idiomas que aqui não pertencem. Uma cidade bonita, mas de outra maneira, não tão óbvia e às vezes até assustadora. Um pouco escondida do quotidiano, se assim o quisermos, ela vive e respira tão ou mais intensamente que os outros ambientes, mais conhecidos de todos.

É uma cidade de imigrantes, de sonhos perdidos, de inesperados no caminho, de encontros e desencontros que pintam a paisagem de real humanidade que aqui se contempla, passo a passo, para não perder pitada.

É uma cidade onde se confinam infinitas culturas, onde coexistem continentes e séculos de separação, agora separados apenas pelo pano de uma tenda de vendilhões de rua. Neste humor da cidade, habitam, lado a lado, o belo e o feio, a proximidade e as costas voltadas, a verdade e as máscaras, mas acima de tudo a autenticidade de quem não escapa a ser inexoravelmente quem é.

Histórias para contar: “A volta ao Mundo”, parte III

plataforma de petróleo, Noruega

“Bom dia, minha senhora. O meu nome é Erik Andersen, sou funcionário da petrolífera Oreksen. Gostaria de falar consigo uns minutos. É possível?”

Assim se introduziu Erik nas suas vidas. Tão assertivamente como havia tocado à porta, queria agora entrar e conversar. Emma acenou timidamente com a cabeça, desejando com toda a sua alma que Audun ali estivesse. Vincent observava atentamente, sentado na mesma posição, enquanto os irmãos se entretinham numa dança de pés e pontapés debaixo da mesa, sinais cúmplices do medo e infinita curiosidade. “Chamo-me Emma Bergan. Estes são os meus filhos, Astrid, Vincent e Lukas. O que podemos fazer por si, Sr. Andersen?” perguntou Emma, a medo. “Minha senhora, venho trazer-lhe novas de uma grande mudança nestas terras. Talvez nunca tenha ouvido falar na nossa empresa. Somos a quarta maior empregadora de toda a Noruega, e com o crescimento do mercado petrolífero, o negócio cresce também. Encontram-nos a fechar os detalhes de um empreendimento considerável que irá mudar a configuração laboral da zona de Nordland. Analisando quantitativamente as potencialidades da região, concluímos que a aldeia de Farkham e todos os seus arredores seriam o local ideal para estabelecer como base de operacional. Faço-me entender até agora?” Erik parou ao notar a expressão confusa da interlocutora. “Sr. Andersen, desculpe, mas há muitas coisas que não percebo. Se me permite a pergunta, de que fala?”. Vincent reconheceu na sua mãe os mesmos traços faciais que esta exibia enquanto assistia, de longe, às frequentes aulas de Auden sobre pesca. Auden era respeitado em toda a aldeia como uma biblioteca de sabedoria no que respeitava aos fiordes e as espécies que dele faziam casa. Com olhar franco, mas discreto, escondido da realidade que não era sua, Emma sorria e depressa voltava aos seus afazeres. Um olhar honesto e descomplicado. E, sem saber porquê, ainda que sua mãe percebesse tanto como que ele próprio deste complexo relato trazido por um estranho, Vincent sentia-se seguro e amparado por ela. “Como lhe dizia,” seguiu Erik veementemente “a nossa empresa está a preparar um empreendimento, isto é, a construção da maior plataforma de petróleo de toda a região norte, a começar já este Verão. Com esta construção, esperamos também contribuir para o desenvolvimento económico da região e poder oferecer postos de trabalho mais competitivos para os seus habitantes. Nomeadamente, a sua família.” Emma gelara.

Desenvolvimento económico? Postos de trabalho competitivos? Vincent não sabia o que isso era. Parecia-lhe tirado das conversas daqueles senhores que estão em Oslo, no governo. Vincent ria-se muito com Markus, o vendedor de jornais, que imitava em tom trocista os homens vestidos de gravata e donos de gestos efusivos. Mas de que falavam, não sabia bem, porque tudo parecia passar-se num mundo tão distante!

Livro dos dias VII

O Fundo do Mar - À procura de Nemo

Este fim de semana estive num jantar espanhol. Em casa de uma amiga, juntaram-se tantas pessoas como regiões de Espanha, e a paisagem humana ia desde Sevilha e Cádiz no Sul; Corunha a Leste; Madrid e Valladolid no Centro; Barcelona a Oeste. Bairrismos à parte, a noite fluiu com sincera naturalidade e o denominador comum era, de facto, uma “hispanidade” intrínseca, ainda que com contornos e sotaques particulares. Vi-me, de repente, imersa numa realidade de tapas e “algo para picar“, tortilla y empanada, vinho e mais vinho, conversas em volume alto. Quando entrei, conhecia apenas uma das habitantes da casa; ao sair, conhecia cerca de vinte espanhóis com quem conversei, pratiquei, o melhor que pude, o idioma à velocidade característica de nuestros hermanos, piquei algo, e até dancei. E não aconteceu por minha causa. Na verdade, a facilidade com que me receberam e o interesse genuíno que demonstraram por uma portuguesa, que aqui está a fazer um doutoramento, fizeram-me sentir à vontade num grupo novo, o que não é óbvio para mim.

Quando voltei para casa (a pé, como quase todos o fizeram), entre o ar frio da noite, não pude evitar sentir um aconchego especial. Percebi porquê.

Há qualquer coisa nos povos latinos, por muitas diferenças que tenham, que fala ao meu coração e me faz sentir em casa. Mais ainda, há algo de humano acima de todas as especificidades locais, algo comum a todos e que faz com que a proximidade de uma conversa quebre todas as barreiras de língua ou cultura, e ponha em cena apenas aquilo que nos une: o sentimentos de um ser humano. E por isso tanto maior o significado da maravilhosa diversidade que nos é dada como companhia. A humanidade é um mar azul de esperança a perder de vista, um clássico ondular que embala e acolhe. Mas este azul tem diferentes tonalidades. Quanto mais fundo nele viajo, mais diferenças aprendo e melhor posso conhecer as espécies de algas, corais e peixes que enriquecem o oceano e lhe conferem uma beleza irrepetível. No entanto, é num só mar, infinito, em que vivo.

Ao fim do dia, fui à missa com a minha amiga S. Tentei acompanhá-la e, pela primeira vez, de facto rezar em espanhol. E nunca para mim fez tanto sentido.

E aí, não bate um coração como o meu?

Hoje tenho necessidade de escrever sobre algo que me toca profundamente: a diferença.

Em Barcelona, ser “diferente” é quase regra. Diferente na roupa, no aspecto, no penteado; diferente e alternativo nos passa-tempos, no estilo de vida que se leva, nas opiniões que se dão, nas posições políticas que ruidosamente se tomam. Com cristas em lugar de franjas, buracos em lugar de brincos, aprecia-se uma arte corporal própria de uma cidade em busca de uma identidade não identificável. De diferença em diferença, os meus olhos aprendem mais e mais que a beleza tem contornos pessoais e únicos.

Não, não é isto que quero partilhar. A diferença que verdadeiramente mexe comigo é a inata. A diferença de quem não escolheu as suas capacidades físicas ou mentais, a diferença de quem é oferecido ao mundo com um conjunto de características que parecem desviá-lo da “norma”. A deficiência, em todos os seus cantos e recantos, que tantas vezes nos provoca pena ao olhar e separação da dessa realidade.

Hoje dei-me conta que na minha rua, na direcção do centro, mora também um lar de deficientes. É raro o dia em que não sou presenteada com um momento de imensa ternura, a sair ou a chegar a casa ao final do dia, geralmente entre duas pessoas: um que empurra a cadeira, outro que se deixa empurrar. Um que apoia os passos e o que oferece mimos em retorno. Não é claro para mim quem ajuda quem. Menos clara ainda vejo a “diferença”. Estas pessoas estão muito mais perto da essência do que eu.

Não menosprezo as dificuldades de uma vida assim. Não tenho qualquer pretensão de imaginar o que é, porque só quem conhece e vive o pode saber. Mas sei os sentimentos que em mim brotam. Ao ver estes desconhecidos, de feições que se vão tornado familiares, interagir com o mundo e os outros, sinto um lado de mim sintonizar-se com eles, com a sua suave transparência e humilde postura. No meio de tanto “alternativo” que pretende marcar uma posição quase rebelde, como me apazigua assistir, feita espectadora privilegiada em camarote de honra, à busca do que nos une uns aos outros. Uma vela acesa no meu dia-a-dia de complicações desnecessárias.

Especialmente quando marginalizada e olhada do outro lado do vidro, a diferença pode ser a artificialidade mais castradora de uma vida. Quando não, tem o potencial de nos transformar e elevar à sua simplicidade.

Que eu saiba olhar para o lado e ver, para além do jardim aparentemente desgastado, a flor de rara beleza que bate ao mesmo compasso do meu coração.