Livro dos dias XIV

“Pára. Senta-te um minuto.” dizia Ele. “Aqui tens uma folha em branco, podes começar a desenhar o que te apetecer.” De repente, como ela costumava ver nos filmes, em que uma fada tinha o condão e a bondade de materializar o que precisamos, uma variedade enorme e avassaladora de lápis de carvão apareceu ao seu lado. Mais carregados, menos expressivos, apresentavam diferentes tonalidades de cinzento, tamanhos e grossuras de risco. “Desenho o quê?” perguntou ela. Ele sorriu. “O que quiseres.”

Ela começou, insegura e indecisa. O desenho era difícil e demasiado monocromático, mas começava a deixar marcas do que o seu coração pedia. A princípio, o lápis travava uma luta silenciosa com o papel, uma troca arriscada de contrastes e inércia que não deixava as ideias passarem do coração para a cabeça, e da cabeça para o branco da folha. O primeiro traço custou tudo, e não significou nada. Era um traço.

Depois, a menor custo, veio o segundo. O terceiro, o quarto, e o quinto, já redondo e fechando círculos de figuras grandes. Começava a haver qualquer coisa definida que povoava o papel. Mas faltava a essência, faltava a diferença que traz a alma e a confiança, faltava a cor da vontade. “Não gosto deste desenho. Não sou eu! Está demasiado incompleto, as formas são muito primitivas…” desabafou ela. “Onde estão os lápis de cor?” Ele sorriu novamente, num olhar tranquilo e familiarizado com aquelas perguntas. “Não tenho.” Ela ficou extasiada. “Não tens? Mas eu pensava que tu tinhas tudo…!”

“Não tenho, não. As cores já as tens tu. Dei-tas há muito tempo… lembras-te?”

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Cinzento

Ontem, para suavizar a carga de um dia intenso de estudo na biblioteca do Hospital Clínic, – Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona – decidi ver um filme antes de me deitar.

Abri o armário onde armazenamos os filmes. Nenhum é meu, há que sublinhar – as minhas posses em Espanha ainda são reduzidas. Percorri a prateleira com os olhos ávidos de algo novo e diferente do que já tinha visto, algo que me prendesse a atenção e me deixasse uma semente sobre a qual jardinar. Parei: “Alice” era o nome, portuguesa a nacionalidade. Lembrava-me deste filme, dos cartazes publicitários em Lisboa, mostrando ao mundo uma história para pensar, e para pesar. Não sabia ao certo de que se tratava: ainda melhor. Sem hesitação, puxei pela capa e rapidamente me aninhei confortavelmente no sofá – que raramente uso – para dar início à sessão.

Não querendo estragar o filme a quem ainda não o viu (e recomendo que o faça), digo apenas que esta história me deixou uma marca no coração. Uma bandeira com um pequeno território, um pedaço de terra por explorar. Com os poucos diálogos que tinha, uma constelação de cinzentos exteriores e interiores exortou em mim o sentimento de abandono.

Como pode ser difícil para nós abandonar algo que nos faz mal? Algo que nos dói, nos mói, nos diminui e deixa reduzidos a algo que não reconhecemos? Assim, dou por mim muitas vezes amarrada (quão voluntariamente? não sei) a uma sequência de passos e rotinas negativas, porque são minhas e já as conheço. Tantas vezes é maior o medo do potencial do que do sofrimento.

Mas é preciso passar essa fase. Só depois, atravessando a ponte hostil, chegaremos a um lugar onde abrimos a gaiola, libertamos o pássaro que aprisionámos. Damos-lhe a hipótese de voar. Olhamos para o céu: então vemos a beleza e naturalidade do desenho que estava guardado, à nossa espera.