Livro dos dias X

Hoje passei o dia a trabalhar para a faculdade. Os exames estão a chegar, os trabalhos não param, e por isso há que fazer horas extraordinárias de estudo (que, na realidade, se vão tornando ordinárias). Saí apenas para fazer exercício de manhã e ir à missa ao final do dia, seguida de um passeio calmo pelas redondezas.

Enquanto voltava para casa, dentro da noite já instalada e do frio que voltou, dei-me conta de que, no meio de um dia cheio de trabalho, pude sair para exercitar o corpo e o espírito; consegui dedicar algum tempo a uma manutenção de saúde física, mental e espiritual. Assim, imaginei esta cidade, que se vai tornando minha também, como um prolongamento da minha casa na Enric Granados. Senti um aconchego suave por ter outros quartos à minha espera, outras salas de estar, ao ar livre ou dentro de portas, em que também vou marcando o meu chão e vou podendo andar com mais segurança. Vejo nitidamente, ainda que com vagar, os pilares que dentro desta nova cidade me vão sustentando e que vão montando os alicerces de uma casa maior, com espaço para todas estas diferenças (assim espero).

Sei que a minha estrutura ainda está em obras. Contudo, há um calor interior que me empurra para a frente, e que me faz saber também que, ainda que em obras, estas não são à “porta fechada”: recebem materiais de muitas pessoas e lugares. Não sei quanto tempo demorarão, mas cada passo que dou me confirma que a “reforma” só me faz bem.

Desde que tenha sempre com uma cadeira para receber, e janelas largas para alcançar.

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Livro dos dias VIII

Hoje voltei de viagem, depois de 4 dias passados em casa. Venho cheia de uma mistura de emoções fortes, de cheiros familiares e conversas edificantes. Cozinhados com os sentimentos de sempre e os sabores caseiros; lugares e encontros que me lembram os contornos do desenho da minha vida.

De regresso, enquanto cruzava os céus e apreciava a paisagem ibérica vista de cima, do conforto de um avião que me leva e traz dos lugares onde respiro o ar que me alimenta, tive a graça de descobrir um novo sentido para a minha mudança de vida: é que, agora, tenho duas casas.

Uma casa que me conhece e acolhe quem sou, outra que me projecta para descobrir novas facetas de mim. Uma casa de alicerces, outra casa de novos materiais. Um casa quente e confortável, outra moderna e (ainda) minimalista. Uma casa de caras e corações enraizados, outra de caras e corações por conhecer melhor.

Não digo que é fácil gerir os mantimentos das duas casas. Não é trivial para mim manter a calma e a paciência de esperar por aquilo que não posso ver e tocar, acompanhar no momento; menos óbvio ainda é caminhar numa casa nova com os pés gastos de outro chão. Mas as minhas duas casas, com tamanhos e em fases de construção diferentes, dão-me o abrigo necessário para procurar ser mais e melhor. E nas viagens que percorrem os dias em que junto as portas das minhas duas casas, é-me oferecida uma paragem, na qual o tempo é eterno e posso apenas olhar “de cima” e aperceber-me das impressões que construo entre as duas moradas.

Duas casas em construção; o abrigo de uma única alma.