Cuidar

floating

Como é que cuidamos da nossa vida?

Vivemos atrás de um véu. Não vemos completamente bem, nem nos vêm completamente bem. O véu deixa passar muito, mas deixa ficar às vezes ainda mais. E depende tanto da maneira como o usamos!

Há dias em que deixamos transparecer mais do que outros. E depois, apesar de este véu dançar consoante os ventos exteriores e as moções internas, tentamos a custo fixar-nos sempre num chão (às vezes, qualquer que ele seja), num tronco, numa decisão. Que fique claro: decisões e determinação são ingredientes importantes. Mas a maneira de assentar sobre uma opção muitas vezes deixa tudo o resto constante; isola o problema do dinamismo da nossa vida, esquecendo que também nós flutuamos.

As necessidades mudam com as circunstâncias. Os desejos ganham contornos de realidade e de palpabilidade. Como se antes brincássemos com LEGOS e agora a cidade fosse verdadeira. E o véu através do qual imaginávamos a cidade dá lugar a uma realidade nossa, viva, verdadeira tanto mais quanto melhor soubemos cuidar das peças que a construíram.

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Rodas Dentadas

Segues o norte, o óbvio

O corpo transparente à luz da vela

O som do tambor repetido e pintado

No reflexo arrastado de uma tela

Páras sem pensar, sem querer

Porque esbarras com o medo

Percebes que o controlo não é vida

E que a vida te guarda um segredo

E o segredo não se descobre

Não corre, nem se deixa agarrar

O segredo vive-se

O segredo espera para se mostrar

Salva-te a alma

E o tempo nas mãos recebido

Para a trabalhar, e com calma

Deixar que reine no jardim colorido

So(m)bras

Eclipse total do Sol, 1999

Às vezes, o dia começa de maneira calma e tranquila, sem que nada faça prever qualquer percalço. De facto, há dias solarengos e com um ar quente e frio à vez, em que ora nos aquecem os raios que viajam mais longe desde o sol, ora nos invade o ar frio que ocupa os pulmões sem pedir licença. Dias normais em que a luz permite ver a estrada com nitidez e o destino com segurança.

Até que chegam as sombras. A sombra põe-me à prova, numa coreografia simples e marcada pelo mesmo passo – o que eu criei por ser quem sou. A sombra turva a vista, faz tropeçar na memória do que se quer longe, do lado escuro de nós, das poças em que invariavelmente vamos molhar os pés porque tão características são do nosso caminho. Depois de anos, esta peregrinação de viver tem setas marcadas, tem quedas antecipadas, tem sombras que sempre regressam e que são restos de quem somos, ainda. Céu que se despega do alto, terra que se encolhe sobre nós. Escuro que mancha a paisagem, penso eu tantas vezes.

Mas a sombra vive porque há uma luz.

Se deixar de fixar a sombra, olhando afinal para a luz de onde ela nasce, o mundo volta a ser o mesmo lugar a que sempre chamei casa: com claro e escuro, caminhos livres e obstáculos, Sol e Lua. Se deixar de fixar a sombra, olhando afinal para a luz de onde ela nasce, a sombra é a minha mais sincera busca de luz. Se deixar de fixar a sombra, olhando afinal para a luz de onde ela nasce… este dia é muito maior.

Livro dos dias VI

Estação do Oriente, Lisboa

Em Barcelona há sempre muitas coisas para ver, uma oferta muito variada de programas, passa-tempos, saídas. Uma boa parte das conversas dos grupos de amigos gira à volta de que combinação fazer, isto é, por onde escolher, quando esbarramos com esta cidade que nos submerge de cultura sem que demos por isso.

Este fim-de-semana foi bem passado, entre passeios pelo centro histórico, visitas a mercados tradicionais, lojas para todos os gostos e bares acolhedores. No entanto, deixou-me a pensar: é fácil, no movimento de alta rotação de uma cidade como esta, entrar numa espiral de busca incessante e insaciável de “algo melhor”, mais “in“, ainda mais fantástico que antes, ainda mais diferente ou alternativo.

Imagino um comboio de alta velocidade (adjectivo que bem caracteriza a vida urbana) no qual viajamos. Queremos parar em todas as estações, mas ao mesmo tempo não queremos perder a velocidade do comboio que nos leva até à próxima estação, na expectativa de que nos encha, outra vez, as medidas.

É aqui que sinto uma clara diferença entre sentir o tempo passar por nós, ou nós passarmos pelo nosso tempo. Entre existir para abarcar toda a oferta do mundo, ou aceitar o que nos é oferecido com calma, à nossa medida. Viver de fora para dentro, ou viver para dentro para fora. Qual é a pressa de chegar a um sítio que nem temos bem certeza de ser o nosso lugar? É mais feliz quem chega mais longe no trajecto, ou quem encontra a sua paragem? Concluo, tantas vezes, que a vida não se constrói nem se saboreia por correr depressa à procura de tudo, mas andar ao nosso ritmo ao encontro de um caminho que não acaba nunca.

Apanhemos o comboio, sim; mas não é preciso ser de alta velocidade, nem sair antes que chegue a nossa estação.

Espelho

Hoje houve a primeira desistência no meu programa de Mestrado/ Doutoramento em Economia na UAB. O P., espanhol de Málaga, foi das primeiras pessoas que conheci quando aqui cheguei. Muito extrovertido, com o sotaque característico do sul de Espanha, é alguém que não passa despercebido pela sua presença forte e evidente desejo de comunicação.

Eram 16h da tarde e estávamos sentados a trabalhar na sala comum do programa (onde estudamos, trabalhamos, conversamos, recebemos cartas, tomamos café e até podemos almoçar, se trouxermos qualquer coisa de casa). Entra o P., com cara fechada e sombria, como ainda não tinha visto, nem associava àquela alma expansiva. Diz que quer falar com todos. Conta-nos a notícia: que vai mudar para outro programa, menos avançado, um passo intermédio entre a licenciatura e o Mestrado/ Doutoramento. Que desde que começou o programa se sentia fora do seu “elemento” e que, desde que tomou a decisão de sair, se sente muito mais em paz. Que não é este o momento para fazer este Mestrado. Poucos de nós tivemos reacção. Senti-me triste por ter já uma despedida para fazer, mas gostei de o ouvir dizer que a decisão o pacificara. Reparei, no entanto, que as pessoas lançavam olhares descodificáveis entre si, mais do que o enfrentavam a ele. Desenhou-se para mim, então, a nítida imagem do P. a segurar um enorme espelho onde todos nos poderíamos ver, se nos déssemos a esse trabalho. Um oásis no meio do infinito deserto de problemas de Matemática, Estatística e Macroeconomia Dinâmica.

Quando saiu da sala, o gelo foi quebrado por uma chuva repentina de opiniões, que em tão pouco tempo e com informação de tal maneira escassa já conseguiam ser ou contra, ou a favor, ou até preditivas do resto da carreira dele. Senti que o momento em que P. saiu da sala foi a deixa para cada um de nós se poder dar ao luxo de não olhar de facto o seu reflexo, não relembrar “o que me trouxe aqui?”, não aproveitar a oportunidade para assentar mais uma fileira de tijolos, ou partir pedra para continuar a obra de outra maneira, mais construtiva, mais NOSSA.

Não me quero deixar levar por essa deixa, como quem deixa o desenho na areia ser levado pela onda antes sequer de o apreciar. Aceitei o desafio do P.: fiquei a pensar no meu caminho para aqui chegar, na minha paz (ou ausência desta) e onde está assente.

E assim, quando cheguei a casa, olhei-me ao espelho de corpo inteiro (recém-montado) e vi que ainda tenho muito para aprender!

Who is that girl I see

Staring straight Back at me?

Why is my reflection someone I don’t know?

Somehow I cannot hide

Who I am

Though I’ve tried

When will my reflection show

Who I am inside?

Reflexion, banda sonora do filme animado da Disney – “Mulan”

Acompanha-me

"I will walk with you"

Hoje, depois de mais um dia de aulas de manhã e mudanças à tarde (desta vez a parte mais “pesada”), tive a felicidade de ser encontrada por uma cena verdadeiramente tocante.

Ia a pé ao virar da esquina para a Carrer de Santalò (já quase a chegar a casa dos amigos), cheia de pressa desnecessária, quando fui obrigada a parar. Olhei em frente e vi o seguinte quadro: uma senhora já com uma certa idade, muito bem arranjada, era sustentada por duas mulheres novas, uma de cada lado. A senhora não podia andar sozinha, uma vez que o passar dos anos e um problema de saúde a deixaram com uma curvatura acentuada nas costas, que a faz pender para o lado esquerdo. Então, as raparigas seguravam os seus braços e tronco, como se tratassem de delicadas porcelanas, e acertavam o ritmo dos pés com a cadência suave da sua senhora. As três caminhavam e conversavam com calma, sobre trivialidades cativantes e enriquecedoras. À vez, falavam do bairro, das árvores, das pessoas que passavam, do que tinham cozinhado. Ouvi toda a conversa (num sério ataque de coscuvilhice, mas acho que me fez bem). Respirei o ar daquele passeio que tinha em comum com elas, até as deixar para seguir o meu trajecto. Fiz tudo o que faltava de caminho lentamente, tentando replicar o passo daquela senhora tão bonita. Senti, nesta pintura onde passei por breves instantes, a honestidade que é saber e querer acompanhar o outro, e deixar-se ser acompanhado. Acompanhar devolve a calma e dignidade ao caminhante, porque não põe expectativas desmedidas, nem se põe na posição de ensinar ou ditar o caminho.

As três amigas continuaram a pé, simplesmente porque a senhora ainda gostava de passear.

A minha cara encheu-se de um sorriso inevitável, mesmo antes de chegar a casa. Que presente tão extraordinário que Deus me deu!