Livro dos dias XXI

Há qualquer traço de mistério nesta cidade.

Um pó invisível, uma cinza discreta e morna, um nevoeiro ténue que envolve a vida e as pessoas daqui. Como um toque de magia, os episódios, as caras, as dinâmicas elípticas entrecruzadas por vidas tão ímpares, apresentam-se vindos de todo o espectro possível da imaginação.

Há de tudo, sente-se um cheiro a variedade e a possibilidade no ar. No entanto, a cidade flui sem demais tropeços, na harmonia inventada pelo ar que a todos acolhe.

E a vida segue sempre, ao ritmo do pó que somos nós.

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Galeria

Galería N2, Carrer d'Enric Granados, Barcelona

Na minha rua (que é consideravelmente comprida), quando caminho em direcção ao centro da cidade, passo por mais do que uma galeria de arte. Fico sempre com vontade de entrar. Entre o pé direito a perder de vista, as paredes limpas de um branco paradoxal, os quadros, emoldurados ou não, como pequenos fragmentos de vida, há qualquer sentimento de mistério que me atrai numa galeria.

Não deixo de admirar os artistas pela enorme coragem que é expor a intimidade do que lhes vai dentro, numa tela à mercê da opinião e juízo exterior. Mais, inspira-me este acto de mostrar ao mundo quem se é, com verdade e respeito, com um espaço próprio e uma dignidade consistente.

Também a minha vida pode ser uma galeria, se souber ir mostrando quem sou dentro de uma parede branca, sem rascunhos ou ilógicas expectativas, mas com a busca sincera do que tenho para dar.

“Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.” Bento XVI, discurso dirigido aos artistas portugueses, Maio 2010

Outras Caras

Há uma cidade gigante, que se chama Barcelona, que começo agora a conhecer.

É uma cidade que adormece e acorda com ritmos diferentes, veste-se de cores de todo o mundo e fala idiomas que aqui não pertencem. Uma cidade bonita, mas de outra maneira, não tão óbvia e às vezes até assustadora. Um pouco escondida do quotidiano, se assim o quisermos, ela vive e respira tão ou mais intensamente que os outros ambientes, mais conhecidos de todos.

É uma cidade de imigrantes, de sonhos perdidos, de inesperados no caminho, de encontros e desencontros que pintam a paisagem de real humanidade que aqui se contempla, passo a passo, para não perder pitada.

É uma cidade onde se confinam infinitas culturas, onde coexistem continentes e séculos de separação, agora separados apenas pelo pano de uma tenda de vendilhões de rua. Neste humor da cidade, habitam, lado a lado, o belo e o feio, a proximidade e as costas voltadas, a verdade e as máscaras, mas acima de tudo a autenticidade de quem não escapa a ser inexoravelmente quem é.

Livro dos dias XIII

outro espectáculo, Jazz Si, Barcelona

Na sexta-feira, depois do primeiro exame da época e por isso da minha estreia em avaliações a sério, fui a um espectáculo de flamenco ao vivo.

Através de pessoas que conheci na escola onde danço, soube que um bar, pequeno e pitoresco, de seu nome “Jazz Si”, que frequentemente apresenta espectáculos de flamenco, jazz, e outros estilos, desde salsa até rock. Pensei que seria o programa ideal para fazer depois de um exame extenuante. Era algo que andava à procura desde que cheguei a Barcelona, atrás de cada esquina e em cada cartaz anunciando espectáculos. Ainda não tinha encontrado a combinação ideal entre um espectáculo pouco turístico e de qualidade.

Depois de um exame de três horas e meia, fiz-me ao caminho esgotada e com vontade de dormir – porque estava convicta de que não me ia arrepender. Às 21h estava eu a chegar ao dito bar. Num sítio minúsculo para tantos amantes do flamenco, as pessoas estavam literalmente penduradas nas escadas e “andar” de cima – que era praticamente um corredor – e ocupavam cada centímetro da plateia, em cadeiras ou mesmo no chão. Decidi infiltrar-me, qual concerto no Pavilhão Atlântico, até montar acampamento à frente do palco, precisamente ao lado de onde os artistas entravam.

Ia à espera de um concerto de guitarra relativamente curto. Fui completamente surpreendida: não só havia guitarra (tocada por um português), como cajón, voz e… dança! Durante duas horas, que as senti como uma semana de férias, fui transportada até uma rua quente e barulhenta de Andalucía, que respirava sotaque, costumes e expressões daquela terra, música e baile com uma garra contagiante.

Ficou em mim, até hoje, um pensamento que tenho vindo a notar mais e mais no meu dia-a-dia. Quando acabei eu o meu dia de trabalho, preparavam-se outras pessoas para começar o seu. Assim, o meu momento de descontracção foi preparado e trabalhado por alguém, durante horas de ensaios e de frustrações parecidas com as minhas. Pertencemos sempre, ainda que em silêncio, ao serviço que os outros nos oferecem, e ao serviço que entregamos aos outros. Gostaria de encontrar sempre uma paixão semelhante à que me tocou como espectadora, nas alturas em que estou em palco naquele que é o meu trabalho.

Que eu saiba olhar sempre para o que faço, nas poeiras dos dias áridos, como um sonho que se realiza em mim.

Trastos

tocar piano a quatro mãos

Em Barcelona, está instituído um hábito semanal de partilha de coisas que já não queremos em nossa casa. Ao invés de haver uma carrinha que recolhe esse tipo de “lixo” após telefonema e combinação com a câmara, o assunto é resolvido de uma maneira muito mais simples e, na minha opinião, mais interessante e dinâmica.

A cada bairro, é atribuído um dia da semana em que as pessoas podem pôr na rua, à porta de casa, os chamados trastos que em sua casa já não são necessários, foram substituídos, estão obsoletos ou estragados, desmontados ou simplesmente fora de moda. Depois, há o passeio ao fim do dia, ou à noite, a que todos somos convidados, caso queiramos espreitar e deixar-nos surpreender por algo que vem mesmo a calhar para rechear a nossa casa (por exemplo a minha, ainda em construção) ou simplesmente caso estejamos à procura de qualquer coisa específica. No dia seguinte, se algo restar da caça nocturna, há uma carrinha da câmara que recolhe todas as sobras da cidade. No meu bairro, o nosso dia é a quarta-feira. Já descobri algumas coisas interessantes, e também já partilhei com alguém (quem?) coisas que vinham com a casa e não precisávamos.

Gosto muito esta simplicidade e eficácia que gera ideias, oferece outras oportunidades dentro de casa. Gosto ainda mais da filosofia anti-desperdício que esta actividade promove.

No entanto, o que de facto me diz mais nesta tradição é a possibilidade de escrever uma história, potencialmente, a infinitas mãos sobre o mesmo móvel. Quem se poderá ter olhado ao mesmo espelho? Em que fases das suas vidas? Será que esta cadeira já deu assento a várias famílias? E naquela estante, quantos livros e sabedoria já foram guardados? Quantas refeições, alegrias, tristezas e rotinas foram partilhadas a uma mesma mesa?

Assim se estabelece, no silêncio, uma relação humana com as “coisas” que habitam a nossa casa.

Centro

Castellers, tradicional pirâmide humana, Barcelona - La Mercè

Hoje esteve um dia de chuva, daquela torrencial, em que por momentos achamos que o céu vai desabar sobre nós qual cascata selvagem, e as nuvens parecem tão perto que quase as podemos tocar.

Caminhando estrategicamente entre as poças e tentando a todo o custo manter-me dentro da zona de protecção do guarda-chuva, apercebi-me que nestes dias, apesar de ver um ângulo muito menor e absorver menos claridade do que me rodeia, os meus olhos fixam outros pontos, a minha cidade ganha outros contornos. Fui assim navegando na ideia de que nem sempre tenho a perspectiva mais verdadeira da realidade, simplesmente porque não está no meu raio de visão.

Quando dou demasiada importância à minha perspectiva, quando me ponho no centro, torno-me mais intolerante, mais defensiva e egoísta. Há um egoísmo inato (e a meu ver necessário) ao ser humano, já ouvi diversas vezes, aquele que nos faz protegermo-nos a nós próprios e lutar pelo que queremos. Penso que aquilo que nos é inato não se resume ao egoísmo; é também a busca de Algo maior.

E se, no nosso centro, também dermos espaço aos outros? Se no meu essencial for aprendendo a criar um santuário em que cabe mais do que uma perspectiva, em que há uma sala confortável para a tolerância, que vai sendo mobilada com o passar dos anos, ao invés de desprovida do que a ocupa para se mudar para a sala onde vivo apenas eu? Se decidir ver que o meu centro é aquilo que me sustenta, e tiver a humildade de perceber que quem me sustenta não sou apenas eu e as minhas “verdades”?

De facto, ao crescer (ou melhor dizendo, ao envelhecer, porque o tempo pode passar sem que eu realmente aprenda algo), a vida e o que ela me trás pode entrar em mim e eu escolher um de dois caminhos: tornar-me mais fechada e defensiva, ou mais aberta e tolerante.

Anos mais tarde, escondido num lugar recôndito do meu coração, espero encontrar o calor de ter lutado sempre pelo segundo caminho.

Livro dos dias VI

Estação do Oriente, Lisboa

Em Barcelona há sempre muitas coisas para ver, uma oferta muito variada de programas, passa-tempos, saídas. Uma boa parte das conversas dos grupos de amigos gira à volta de que combinação fazer, isto é, por onde escolher, quando esbarramos com esta cidade que nos submerge de cultura sem que demos por isso.

Este fim-de-semana foi bem passado, entre passeios pelo centro histórico, visitas a mercados tradicionais, lojas para todos os gostos e bares acolhedores. No entanto, deixou-me a pensar: é fácil, no movimento de alta rotação de uma cidade como esta, entrar numa espiral de busca incessante e insaciável de “algo melhor”, mais “in“, ainda mais fantástico que antes, ainda mais diferente ou alternativo.

Imagino um comboio de alta velocidade (adjectivo que bem caracteriza a vida urbana) no qual viajamos. Queremos parar em todas as estações, mas ao mesmo tempo não queremos perder a velocidade do comboio que nos leva até à próxima estação, na expectativa de que nos encha, outra vez, as medidas.

É aqui que sinto uma clara diferença entre sentir o tempo passar por nós, ou nós passarmos pelo nosso tempo. Entre existir para abarcar toda a oferta do mundo, ou aceitar o que nos é oferecido com calma, à nossa medida. Viver de fora para dentro, ou viver para dentro para fora. Qual é a pressa de chegar a um sítio que nem temos bem certeza de ser o nosso lugar? É mais feliz quem chega mais longe no trajecto, ou quem encontra a sua paragem? Concluo, tantas vezes, que a vida não se constrói nem se saboreia por correr depressa à procura de tudo, mas andar ao nosso ritmo ao encontro de um caminho que não acaba nunca.

Apanhemos o comboio, sim; mas não é preciso ser de alta velocidade, nem sair antes que chegue a nossa estação.